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A Simbiose Industrial além das fronteiras
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A Simbiose Industrial além das fronteiras

O tradicional modelo linear de economia que não estima a geração de serviços e produtos mais duráveis e de melhor qualidade está em colapso. Um dos caminhos para se enfrentar este desafio é por meio de um modelo econômico circular, que busca aprimorar o capital natural, otimizando riscos sistêmicos, como a administração de estoques finitos e fluxo de recursos renováveis (ELLEN MACARTHUR FOUNDATION, 2017a).

A transição entre esses dois modelos pode ser feita por meio de modelos de negócios que vão de encontro aos objetivos do modelo circular como, por exemplo, a Simbiose Industrial (TAVARES, 2018). A origem da nomenclatura simbiose está na ecologia, onde é utilizada para denominar a associação benéfica e recíproca entre dois ou mais seres vivos de espécies diferentes. Com isso, esse modelo pode ser definido como um arranjo produtivo em que indústrias diferentes, não necessariamente próximas, trocam correntes de produto, resíduos e insumos entre si, melhorando assim o desempenho ambiental, social e econômico das mesmas, frente às suas atuações individuais (VEIGA, 2007).

Com o propósito de organizar uma análise mais aprofundada dos projetos industriais em que ocorrem trocas de materiais, Chertow (2000), Mitchell (2002) e Starlander (2003) classificam os diferentes Parques Industriais, como se pode ver a seguir na tabela 1.

Tabela 1. Definições de Parques Industriais Ecológicos.

Autores
Classificações Chertow (2000) Mitchell (2002) Starlander (2003)
1 Indústrias Localizadas em mesmo Parque Industrial: Há permutas de resíduos, energia, água, materiais, recursos humanos e serviços. Co-localizadas: Indústrias localizadas perto uma das outras, pertencendo a um mesmo distrito industrial. Co-localizadas:
Indústrias localizadas em “clusters” indústrias.
2 Indústrias Não Localizadas em mesmo Parque Industrial: Ocorre o intercâmbio entre indústrias localizadas em uma mesma região geográfica, havendo possibilidade de acontecer adesão de novas indústrias. Virtuais:
O fluxo de resíduos é feito entre regiões interligadas pela informática e otimizada por logística.
Virtuais:
As indústrias estão distribuídas numa região que podem incluir diferentes áreas, municípios e países.
3 Indústria Organizada Virtualmente: A permuta de resíduos é feita entre indústrias localizadas em diferentes regiões. Recuperação de Recursos:
Parques co-localizados de reciclagem, fornecimento de manufaturas e revenda de insumos.
4 Intercâmbio Externo de Resíduos: Demandas e ofertas são trocadas através de bancos de dados. Parque de Tecnologia Verde:
Indústrias Co-localizadas ou não, incentivadas pelo poder político, utilizam- se de tecnologia limpa em seus processos.
5 Intercâmbio Interno de Resíduos: Trocas de resíduos ocorrem dentro dos limites de uma unidade industrial ou entre indústrias de uma mesma empresa. Parque Eco Industrial:
A gestão ambiental cooperativa é empregada para atingir um desenvolvimento sustentável.
6 Sistema de Gestão Ambiental:
Indústrias que trabalham de forma integrada buscando estratégias para a redução do consumo de recursos naturais, minimização da poluição do meio ambiente e mitigação da geração e disposição de resíduos no processo produtivo.

Fonte: Elaboração própria a partir de Veiga (2007).

Nesse presente artigo, será adotada a classificação de Starlander (2003) que define os parques industriais em dois tipos: Co-localizados e Virtuais. A proximidade física entre as indústrias pertencente aos Parques Industriais Ecológico Co-localizados facilita o desenvolvimento de sinergias entre as mesmas, permitindo assim, uma maior integração e cooperação entre os atores envolvidos. Já no caso dos Parques Industriais Ecológicos Virtuais, suas integrações não dependem unicamente da proximidade física, mas também da utilização da informática e logística, que proporcionam um maior número de possibilidades de interações entre as diferentes empresas. Assim, a abrangência e diversidade dos atores vinculados são maiores que nos co-localizados (VEIGA, 2007).

Um exemplo de simbiose industrial co-localizada é o parque eco-industrial de Kalundborg, na Dinamarca, reconhecido pelo caso bem-sucedido desse modelo, em que as companhias realizam o intercâmbio de materiais e energia para serem usados como insumo, formando um ciclo fechado de produção, como mostra a Figura 1 (SYMBIOSIS DK, 2018). Estabelecido desde 1972, o parque apresenta atualmente a simbiose entre o município e mais 9 empresas: a Novozymes, a Novo Nordisk e a Biopro da área biotecnológica; a Gyproc da área de Construção Civil; a Equinor, a Argo, a Orsted e a Avista Oil da área energética; e a Kalundborg Forsyning da área de serviços. Além de outros benefícios, 3 milhões m3 de água são economizados e 150 Kt de levedura residual são reutilizados como insumo em ração suína, evitando o consumo de 70% de soja para este fim (ELLEN MACARTHUR FOUNDATION, 2017b).

 

Figura 1. Esquema representativo da Simbiose Industrial organizada no Parque Eco-Industrial de Kalundborg (DK).
Fonte: symbiosis.dk (2018).

Já no caso da simbiose industrial virtual pode-se citar como modelo o National Industrial Symbiosis Programme (NISP) do Reino Unido. Houve a formação de um Conselho Empresarial para Desenvolvimento Sustentável – Reino Unido (BCSD-U K), que instalou um programa de sinergia entre empresas fisicamente próximas, nas regiões de Humberside, West Midlands e Mersey Banks, inspirado no Programa de Sinergia de Subproduto (BPS) em Tampico, México (MIRATA, 2004).

A Tabela 2 apresenta os fatores viabilizadores para que a SI fosse viabilizada, onde se destacam a organização conjunta das instituições responsáveis pelos projetos e o grupo de políticas voltadas para o desenvolvimento sustentável (MIRATA, 2004).

Tabela 2 – Fatores viabilizadores para o projeto de Simbiose Industrial a nível nacional.

Categoria Elementos dos fatores constituintes Potenciais das áreas de influência
Técnica Atributos (físicos, químicos e locais) de fluxos de entrada e saída; Necessidades e capacidades relacionadas ao processamento de fluxos utilitários (energia, água, gestão de resíduos); logística e recursos gerenciais; Disponibilidade de tecnologias confiáveis e econômicas para permitir sinergias. Número e diversidade de possíveis ligações simbióticas; Extensão do investimento e do esforço necessários para desenvolver e para manter as sinergias.
Política Políticas ambientais globais; Natureza e implicações de leis e regulamentos relevantes; Impostos, taxas, multas, subsídios e créditos relevantes. Incentivar o desenvolvimento e a adoção de medidas ambientais sobre tecnologias e práticas desejadas (por exemplo, com exigências estritas, mas flexível em formas de cumprimento).
Econômica e Financeira Custos de insumos virgens, valor econômico de resíduos e subprodutos correntes e o impacto dos elementos políticos; Economia de custos, potencial de geração de receita, tempo de retorno, retorno nos parâmetros de investimento (ROI); Tamanho do investimento de capital e custo de manutenção de sinergias (incluindo custos de transação e de oportunidade). Extensão da vantagem econômica e competitividade de ganho; Decisões de empresas privadas; Necessidade de fonte alternativa de financiamento.
Informacional Disponibilidade de informações oportunas e confiáveis sobre o projeto em questão; Um sistema de gerenciamento de informações que, sistematicamente, monitorem dinâmicas de mudanças e avaliem a conveniência e viabilidade de várias opções; Possibilidades para identificar sinergias; Possibilidades de operacionalizar sinergias; Percepção de risco das empresas.
Organizacional e Motivacional Confiança; Abertura para o outro e para novas ideias; Percepção de risco; Nível de interação social e proximidade mental; Disponibilidade local de poder de decisão; Histórico organizacional; Natureza da interação entre a indústria, os políticos influentes. Presença ou criação da estrutura institucional necessária para o projeto; Desenvolvimento de sinergias; Manutenção de sinergias.

Fonte: Mirata (2004).

Segundo pesquisa divulgada por Jensen (2011), a metodologia do NISP se baseia em contactar a empresa com potencial de participação e discutir possíveis soluções para os rejeitos gerados. Inicialmente, esse contato trata especificamente de um problema de destinação de um resíduo e, com o tempo, também são discutidos fatores logísticos mais abrangentes e destinação de mais subprodutos. Essa reunião de dados inclui uma lista de itens have/want da empresa e os dados são registrados na plataforma de controle do NISP, denominado CRISP (Core Resource for Industrial Symbiosis Practitioners). Dados de dezembro de 2009, registraram a participação de 979 empresas cadastradas na plataforma e, destas, 792 já haviam colocado a simbiose em prática.

Os participantes desse programa incluem desde microempresas a multinacionais de todos os setores da indústria, como mostra a Figura 2, em que as micro e médias empresas representam 90% dos membros.

Figura 2. Algumas das empresas participantes do Programa Nacional de Simbiose Industrial do Reino Unido.
Fonte: Adaptado de Laybourn (2013).

O NISP foi citado como um dos 30 exemplos globais de projetos que estimulam a economia circular em 2014 (INTERNATIONAL-SYNERGIES, 2018). Segundo Laybourn e Morrissey (2013), esse programa possibilitou, por exemplo, o reuso de vapor e 12.500 toneladas de CO2 residuais por ano dos processos de produção de derivados de nitrogênio e metanol da Terra Nitrogen Ltd. pela John Baarda Ltd, um pequeno produtor de hortaliças, ambas no Reino Unido. Isso permitiu aumentar o cultivo de tomate em 50% por ano e aquecer a estufa onde os mesmos são cultivados, cujo tamanho é correspondente a 23 campos de futebol.

Já a produtora de carne, John Pointon & Sons Ltd., encontrou no programa uma solução para 150 Kt de resíduos de carne e farinha de osso que seriam enviados para aterros. A queima desses resíduos permite a geração de energia e os sais de cálcio gerados são utilizados como matéria-prima na produção de cimento. Essa simbiose permitiu a redução de cerca de 277 Kt de CO2 emitidos e a criação de 10 empregos (LAYBOURN E MORRISSEY, 2013).

Cabe ressaltar que existem desafios a serem enfrentados por esse sistema de simbiose industrial virtual, em que as empresas não estão próximas. Entre as dificuldades relatadas no estudo de Abreu e Ceglia (2018), estão a necessidade de alto nível de planejamento e colaboração entre as empresas, autoridades locais, consumidores e fornecedores para entender como o fluxo de resíduos pode ser usado em outro lugar. Além disso, a logística das matérias-primas, a falta de uma agenda e um suporte financeiro e técnico pelo governo, para que as empresas possam atingir as metas impostas pela gestão pública, também são fatores criticados para encontrar uma “solução comum” para a gestão de resíduos.

O caso brasileiro

Em 2009, a Federação de Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) elaborou uma versão do National Industrial Symbiosis Programme (NISP) do Reino Unido e o intitulou de Programa Mineiro de Simbiose Industrial (PMSI), com a finalidade de estimular o desenvolvimento sustentável das indústrias (PMSI, 2016). Desde o início do programa mineiro até o ano de 2015, foram viabilizados a recuperação de 140 mil toneladas de resíduos, 200 mil toneladas de recursos naturais deixaram de ser utilizados, a emissão de carbono diminuiu 90 mil toneladas e mais de 13 milhões de m³ de água foram reutilizados. Paralelamente a isto, a reciclagem dos materiais resultou na redução de 8,7 milhões de reais em custos para as empresas participantes durante este período (OMETTO; AMARAL; IRITANI, 2018).

No entanto, de acordo com Tanimoto (2004) ainda há barreiras para a implementação da simbiose industrial no Brasil, um exemplo disso é a existência de barreiras econômicas e de negócios. Muitas empresas não veem benefícios em trocas de coprodutos, especialmente se estas trocas envolvem empresas concorrentes.  Já a falta de incentivos pelos ganhos coletivos e a escassez de profissionais qualificados é considerada também mais uma barreira técnica a implantação da simbiose industrial. Por fim, a legislação pode se tornar uma barreira ao definir altos custos de licenciamento ambiental e de transporte dos subprodutos, prejudicando dessa maneira a relação simbiótica das empresas.

Assim, a adoção de novos modelos de negócios, a importância de ações públicas e o uso de plataformas colaborativas incentivados pela economia circular tendem a mitigar essas dificuldades e permitir o fortalecimento de sinergias supra regionais.

Referências

ABREU, M. C. S. de; CEGLIA, D., 2018. On the implementation of a circular economy: The role of institutional capacity-building through industrial symbiosis. Resources, Conservation & Recycling, v. 138, p. 99 – 109.

ELLEN MACARTHUR FOUNDATION, 2017a. Uma economia circular no Brasil: uma exploratória inicial. Disponível em: <https://www.ellenmacarthurfoundation.org/assets/downloads/languages/Uma-Economia-Circular-no-Brasil_Uma-Exploracao-Inicial.pdf>. Acesso em: set. 2018

ELLEN MACARTHUR FOUNDATION, 2017b. Effective industrial symbiosis. Disponível em: <https://www.ellenmacarthurfoundation.org/case-studies/effective-industrial-symbiosis>. Acessado em: mai. 2017.

INTERNATIONAL-SYNERGIES, 2018. National Industrial Symbiosis Programme. Disponível em: <https://www.international-synergies.com/projects/national-industrial-symbiosis-programme/>.  Acesso em: set. 2018.

JENSEN, P. D.; BASSON, L.; HELLAWELL, E. E.; BAILEY, M. R.; LEACH, M. 2011. Quantifying ‘geographic proximity’: Experiences from the United Kingdom’s National Industrial Symbiosis Programme. Resources, Conservation and Recycling, v. 55, p. 703-712.

LAYBOURN, P., 2013. Opportunities through Industrial Symbiosis: UK NISP and Global Experience. In: Industrial Symbiosis Workshop for Development Agencies and Regional Plans. Disponível em: <http://www.endustriyelsimbiyoz.org/wp-content/uploads/2013/02/industrial-symbiosis_uk-nisp-and-global-experience_31.01.2013.pdf>. Acesso em: set. 2018.

LAYBOURN, P.; MORRISSEY, M., 2013. The pathway to a low carbon sustainable economy. National Industrial Symbiosis Program. Disponível em: <http://www.wrap.org.uk/sites/files/wrap/Pathway%20Report.pdf>. Acesso em: set. 2018.

MIRATA, M., 2004. Experiences from early stages of a national industrial symbiosis programme in the UK: determinants and coordination challenges. Journal of Cleaner Production, v. 12, p. 967–983.

OMETTO, A. R.; AMARAL, W.; IRITANI, D. R., 2018. Economia circular: Oportunidades e Desafios para a Indústria Brasileira. Disponível em: < http://www.portaldaindustria.com.br/publicacoes/2018/4/economia-circular-oportunidades-e-desafios-para-industria-brasileira/>. Acesso em: set. 2018.

PROGRAMA MINEIRO DE SIMBIOSE INDUSTRIAL (PMSI). Disponível em: <http://www.fiemg.org.br>. Acesso em: set. 2018.

STARLANDER, J. E., 2003. Industrial Symbiosis: A Closer Look on Organizational Factors, a study based on the Industrial Symbiosis project in Landskrona. Disponívem em: < https://lup.lub.lu.se/luur/download?func=downloadFile&recordOId=1324966&fileOId=1324967 >. Acesso em: set.2018

SYMBIOSIS DK. Disponível em: <www.symbiosis.dk>. Acesso em: set. 2018.

TANIMOTO, A. H. Proposta de simbiose industrial para minimizar os resíduos sólidos no Polo Petroquímico de Camaçari. 2004. Dissertação (Mestrado em Gerenciamento e Tecnologias Ambientais no Processo Produtivo) – Departamento de Engenharia Ambiental, Universidade Federal da Bahia.

TAVARES, A. S. A cadeia produtiva da Indústria Química no contexto da Economia Circular. 2018. 162 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Processos Químicos e Bioquímicos) – Escola de Química, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018.

VEIGA, L. B. E. Diretrizes para a Implantação de um Parque Industrial Ecológico: Uma Proposta para o PIE Paracambi. 2007. Tese (Doutorado em Ciências em Planejamento Energético) – Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

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