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Petróleo em alta volta a tornar o etanol celulósico competitivo

A recuperação dos preços do petróleo voltou a tornar promissoras as perspectivas para o etanol produzido a partir de resíduos agrícolas, o que no passado já chegou a ser a grande aposta da indústria de combustíveis alternativos.

Em meio a custos com combustível cada vez mais pesados no bolso do consumidor, o chefe do último consórcio ainda empenhado em produzir em grande escala esse tipo de etanol nos EUA acredita que as outras empresas erraram ao desistir dessa frente. Feike Sijbesma, executivo-chefe da Royal DSM, empresa holandesa que faz parte do grupo que trabalha para produzir etanol celulósico na usina de Project Liberty, em Iowa, disse que o combustível caminha para ser competitiva frente à gasolina. A alta nos preços do petróleo ajuda.

A recente recuperação nas cotações para mais de US$ 75 por barril do petróleo Brent aumenta as esperanças de que o etanol celulósico possa ser competitivo, caso os problemas de engenharia do processo possam ser solucionados. “Não tem sido uma estrada fácil, mas estamos chegando lá”, disse ao jornal Financial Times. “A tecnologia é mais complicada do que todos imaginavam no início”.

A Royal DSM, que trabalha nas áreas química e de biotecnologia, criou a Project Liberty junto com a empresa americana de etanol Poet, para produzir o combustível a partir das espigas, folhas e cascas de milho deixadas após a colheita.

A usina foi inaugurada em 2014, mas ainda não atingiu a capacidade plena de produção de 20 milhões de galões de etanol (cerca de 76 milhões de litros) por ano.

DuPont e Abengoa, que coordenavam projetos similares nos Estados Unidos, os abandonaram.

O Project Liberty, no entanto, não só continuou operando como sua produção agora está em alta. Um sinal de como o consórcio Poet-Royal DSM se mantém confiante é o fato de que em 2017 prometeu construir instalações na usina para desenvolver as enzimas usadas para “romper” a celulose presente nos restos do milho e, assim, produzir o biocombustível.

Sijbesma disse que o maior desafio do Project Liberty foi a logística de recolher os resíduos de milho e, depois, processá-los antes de iniciar o tratamento na usina. A eficiência das enzimas em romper a celulose superou as expectativas, mas houve outros problemas, como a dificuldade de remover a sujeira, areia e pedras do material.

Ele acrescentou que esses problemas vão ser mais fáceis de resolver do que os métodos científicos básicos, de usar as enzimas para romper a celulose, porque são questões mais similares às de outros processos de produção.

No atual cenário de preços, se a Project Liberty estivesse produzindo a todo vapor, seu etanol seria competitivo em relação à gasolina, segundo Sijbesma. “Com qual preço nos sentimos confortáveis? US$ 70”. O petróleo Brent passou dos US$ 79 por barril nesta semana pela primeira vez desde 2014.

Há dez anos, o etanol celulósico era visto como vital para o futuro do fornecimento de fontes de energia, pois representava uma opção para os combustíveis fósseis e tinha emissões mais baixas de gases-estufa, além de não concorrer com a demanda por alimentos.

A Lei de Segurança e Independência Energética dos EUA, de 2007, traçou metas ambiciosas para o uso dos biocombustíveis celulósicos, que não chegaram nem perto de ser alcançadas. Foram produzidos 10 milhões de galões de etanol celulósico em 2017 nos EUA, só 0,2% do objetivo original.

A DowDupont, criada pela fusão da DuPont e da Dow Chemical, parou de produzir em sua usina de etanol celulósico em Iowa e a colocou à venda. A Abengoa também desativou sua usina de etanol celulósico no Kansas, em 2015. A usina entrou em processo de recuperação judicial e foi comprada no fim daquele ano por uma empresa americana chamada Synata Bi o, que, com uma oferta de US$ 48,5 milhões, superou a Royal Dutch Shell em leilão. Fontes do setor dizem que a usina não aparenta estar produzindo etanol celulósico. Procurado, a Synata não faz nenhum comentário.

Outras empresas vêm tentando caminhos diferentes para produzir etanol celulósico. A DowDupont, por exemplo, vende as enzimas para o combustível produzidas a partir dos grãos de milho que sobram da produção do etanol convencional. A Aemetis, da Califórnia, pretende criar uma usina para produzir etanol celulósico a partir de resíduos de pomares e cascas de nozes.

A exigência de uso de biocombustíveis prevista na lei norte-americana de 2007 continua, mas modificada. No caso dos celulósicos, a exigência foi reduzida para cerca de 5% de sua meta original e, na maior parte, é cumprida por meio do uso de gás natural renovável, obtido de fontes como as usinas de tratamento de esgoto e aterros sanitários.

Para 2018, a exigência de uso de combustível celulósico foi fixada em 288 milhões de galões, abaixo dos 311 milhões de 2017. Os EUA estudam mudanças nas regras para encorajar a venda de etanol. No longo prazo, as perspectivas para o etanol e outros biocombustíveis celulósicos no mundo vão ser muito melhores se os preços do petróleo continuarem no nível atual ou se subirem ainda mais.

Ed Crooks – Financial Times
Com tradução de Sabino Ahumada

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